A linha de fuga de Adrianna eu


      “O ato de costurar, gesto singelo de uma atividade doméstica, domina o trabalho/performance de Adrianna eu documentado pela imagem digital. No entanto, o que a imagem faz ver são linhas vermelhas que transpassam a pele, prolongam a extremidade do corpo conectando-o com o ambiente, atando o corpo em movimento com uma casa em construção, delineando, enfim, uma cena que ilustra, com perfeição, a atitude que motiva todo o desdobramento do seu trabalho: tornar expressivas as funções, os objetos, as portas, os espelhos, o chão, o teto de uma casa habitada por uma mulher em fuga.

Uma fuga curiosa, pois local; determinada pela vontade artística de construir paisagens poéticas com objetos de valor sentimental do universo feminino. Fuga que se dá no interior da casa habitual, um tanto vivi- da, para dela extrair uma casa-sensação, uma casa vívida, apresentada em esboços, pois aberta para um universo a ser construído.

Mas o que faz da fuga o motivo maior? Fugir é, segundo Deleuze e Guattari, a operação pela qual um indivíduo ou um grupo abandona um território através de um movimento de desterritorialização. Esta operação constitui, segundo os autores, uma linha de errância da vida que procura escapar de todos os segmentos psicosociais que a ata às organizações opressoras, fixando-lhe territórios através de códigos que lhe impõem um funcionamento. Linha inventora de possibilidades de vida, que consiste em modos de existência singulares que se determinam nos movi- mentos estilísticos da criação. Ora, se a linha de fuga, como querem os autores, é a linha que uma vez traçada permite a vida alcançar movimentos de expres- são singulares - onde uma diferença vem a se impor através de um estilo é certo que nos trabalhos de Adrianna a fuga consiste na invenção de um feminino singular através da exploração afetiva da casa habitada por uma mulher. Um devir da mulher, portanto, com o seu universo próprio, com suas tensões específicas, que aos poucos vai se esboçando através dos monumentos artísticos que lhe conferem dignidade.

Entretanto a fuga que anima o procedimento não aparece de forma óbvia. É que a princípio, diante das paisagens poéticas que a artista apresenta, há sem- pre uma sensação de estranhamento na presença do mais familiar. Adrianna explora o cotidiano, parece escolher nele as peças mais significativas da habitação sentimental da mulher para daí partir no seu movimento de desterritorialização. De certa forma é possível dizer que ela desconstrói a morada cotidiana das mulheres em curso, com o propósito de construir uma nova morada, uma casa singular, casa de todas as casas das mulheres que sofrem, que amam,que gozam e que se afirmam no desejo de fugir para afirmar o que são. Diremos então que, de inicio, a obra é plasmada na tensão entre um cotidiano que se desfaz na direção de uma casa por vir, onde o pathos da desterritorialização se evidencia na obra através de um procedimento que gostaríamos de chamar de interseccionismo. Este termo, que fomos buscar na obra de Fernando Pessoa, é utilizado pelo autor para precisar o procedimento poético do seu ortônimo, que consiste em explorar a intersecção existente em cada sensação poética, entre paisagens mentais e físicas, entre perceptos e afetos, idéias e percepções, lembranças passadas e estados físicos atuais. Para Pessoa o objetivo da arte é expressar a intersecção simultânea entre as paisagens da alma e as paisagens externas, criando uma paisagem comum que consistirá na própria obra de arte . No interseccionismo de Adrianna Eu as duas paisagens postas em conexão pertencem ao uni- verso de uma casa habitada por uma mulher. Há, por um lado, uma casa íntima – com as peculiaridades afetivas da alma feminina – e, por outro, um meio doméstico, morada a ser explorada no movimento de criação. A intersecção que se anima consiste em um movimento de desterritorialização que conjuga objetos femininos historicamente determinados com afetos da casa íntima , produzindo conexões inéditas, onde as sensações criadas testemunham a presença de um delicado devir. Este procedimento complexo pode ser explicitado através de três movimentos.

Em primeiro lugar, Adrianna se serve da linha verme- lha - a linha que costura as mãos – como fio condutor da sua exploração sentimental. Com a linha ela refaz um chão de tacos antigos com costura manual e em seguida o suspende, dando a eles uma tensão e uma ondulação que suscitam no espectador a vertigem de uma suspensão sentimental. No chão que ela faz ver desvela-se a paixão. Uma paixão inseparável de uma espera. De uma expectativa tensa. De um adiamento de uso. Paixão que se evidencia no coração feito de linhas vermelhas pendurado em um cabide. Assim, a linha que costura o chão reaparece no coração que espera. As linhas vermelhas compõem também uma outra instalação: trata-se de uma tenda construída com um gigantesco lençol vermelho de onde pendem milhares de linhas com anzóis doura- dos, criando uma atmosfera agressiva, de caça. Há, no entanto, no centro da instalação, a conjugação insólita de dois anzóis que formam um coração, forçando-nos a pensar imediatamente no amor enquanto caça, no amor como captura. Em outro trabalho as linhas se proliferam compondo inúmeros corações suspensos, atados uns aos outros por uma teia, uma rede orgânica prestes a ser rompida por inúmeras tesouras. O que expressa o golpe das tesouras que ameaçam a união dos corações? O fim do amor? Ou a própria condição da paixão?... Não reside na ame- aça da separação o desejo mais forte de união?... Asafetivas da alma feminina – e, por outro, um meio doméstico, morada a ser explorada no movimento de criação. A intersecção que se anima consiste em um movimento de desterritorialização que conjuga objetos femininos historicamente determinados com afetos da casa íntima , produzindo conexões inéditas, onde as sensações criadas testemunham a presença de um delicado devir. Este procedimento complexo pode ser explicitado através de três movimentos.

Em primeiro lugar, Adrianna se serve da linha verme- lha - a linha que costura as mãos – como fio condutor da sua exploração sentimental. Com a linha ela refaz um chão de tacos antigos com costura manual e em seguida o suspende, dando a eles uma tensão e uma ondulação que suscitam no espectador a vertigem de uma suspensão sentimental. No chão que ela faz ver desvela-se a paixão. Uma paixão inseparável de uma espera. De uma expectativa tensa. De um adiamento de uso. Paixão que se evidencia no coração feito de linhas vermelhas pendurado em um cabide. Assim, a linha que costura o chão reaparece no coração que espera. As linhas vermelhas compõem também uma outra instalação: trata-se de uma tenda construída com um gigantesco lençol vermelho de onde pendem milhares de linhas com anzóis doura- dos, criando uma atmosfera agressiva, de caça. Há, no entanto, no centro da instalação, a conjugação insólita de dois anzóis que formam um coração, for- çandonos a pensar imediatamente no amor enquanto caça, no amor como captura. Em outro trabalho as linhas se proliferam compondo inúmeros corações suspensos, atados uns aos outros por uma teia, uma rede orgânica prestes a ser rompida por inúmeras tesouras. O que expressa o golpe das tesouras que ameaçam a união dos corações? O fim do amor? Ou a própria condição da paixão?... Não reside na ame- aça da separação o desejo mais forte de união?... As linhas prosseguem construindo caminhos insólitos de escadas com degraus formados por agulhas, escadas que se multiplicam por bifurcação.   Escoam por peneiras delicadas, feitas de prata, peneiras sutis que re- montam à infância para, enfim, transpassar as por- tas - abertas uma diante da outra – como um fluxo vermelho,fluxo sanguíneo talvez, mas, com certeza, um fluxo desejante. Breve a instabilidade amorosa se evidencia, uma poética do instável se insinua, fazendo apelo a um universo possível de um feminino em construção. Universo habitado por agulhas, linhas, corações, chãos suspensos, peneiras,cabides, vertigens, esperas, amores, paixões e fluxos de desejo. A intersecção entre o emotivo e o percebido se dá no afeto que desterritorializa o objeto para plasmá-lo no universo dessa casa virtual, caracterizando assim o primeiro traço de seu procedimento.

Em segundo lugar aprofundando a exploração da casa íntima com o propósito de ampliar o interseccionismo - a artista visita a história, seja pessoal ou social, para dela extrair o material que encarnará as sensações. Tudo começa pela escolha dos objetos: para Adrianna é necessário que tais objetos já possuam um valor estético e que se apresentem como relíquias do imaginário feminino. Assim, os estojos e os espelhos, o guarda-chuva de cabo de osso em estado de decomposição, o espelho de prata que não mais reflete (tornado transparente pelo procedimento), as agulhas de fiar, o cabide antigo, devem portar a delicadeza do feminino, mas também a potência indispensável para a consecução do seu devir. A princípio Adrianna recorre aos objeto clichês do universo das mulheres. Retira-os da história para colocá-los em uma zona de indiscernibilidade, onde o objeto amputado pelo isolamento das suas funções corriqueiras, vai entrar no universo possível da casa a ser construída. O guarda-chuva não mais protege mas, ao contrário, fere, pois dentro dele desaba uma chuva de alfinetes; o grande espelho abriga estojos de diversas gerações de mulheres, fazendo-nos imediatamente pensar no culto narcísico e demorado de uma beleza facial em construção; e o espelho de prata não mais reflete, mas tal como uma lente, faz ver um mundo invadido pela linha que o transpassou e que envolve objetos do mundo visto, trazendo-os para a com- posição da casa afetiva . Assim o intersecionismo se amplifica na direção de uma zona temporal instala- da entre o passado e o futuro. Quando os objetos são arrancados da história, colocam em fuga todo o passado, mas conservam, não obstante, as pálidas lembranças que servem de índices de territórios a serem construídos.

O procedimento se completa na criação de uma casa- sensação, constituída por paisagens poéticas que consolidam, na duração, o universo emotivo das mu- lheres. É preciso dizer que a grande fuga de Adrianna Eu é a própria obra em construção. Obra que faz fugir o mundo feminino das vicissitudes históricas, mas que conserva a mulher com a sua potência estética de reinventar - a partir do que são - um trânsito libertário na direção do por vir. Adrianna, na exploração da sua casa trans histórica, conectando o mais íntimo com o mais estranho, colocando em intersecção o interior e o exterior, o passado e o presente, cria, na fuga que constrói, uma obra que conserva a diferença de uma mulher que se afirma na sutileza dos afetos mais triviais. A linha que atravessa o seu corpo indica o movimento da sua arte: envolver, arrancar, vazar, fazer fugir os objetos afetivos para um mundo igual- mente afetivo, onde eles possam durar, conservando, na eternidade do tempo da obra, a delicadeza de um universo feminino singular.


                                                                                                                          Auterives Maciel Júnior




Adrianna eu’s line of flight 


The act of sewing, a simple gesture of domestic activity, dominates the work/performance of Adrianna Eu documented by digital images. However, these images make us see red threads that penetrate through skin, extend the ex- tremity of the body by connecting it with the environment, bind the body in movement to a house under construction, projecting, in short, a scene that illustrates perfectly the attitude that drives the unfolding of her work: to make expressive the functions, objects, doors, mirrors, floor, roof of a house inhabited by a woman in flight.

A curious flight, since it is local; determined by the artistic intent to construct poetic landscapes with objects of sentimental value taken from the feminine universe. A flight that takes place within the usual home, clearly well lived in, so as to extract from it a sensationhouse, a vivid house, presented in outline since it is open to a universe that is yet to be constructed.

So, why is flight the overriding motive? Flight is, according to Deleuze and Guattari, the operation by which an individual or a group abandons a territory by means of a movement of deterritorialization. This operation consists of, according to the authors, an errant life line that seeks to escape from all the psycho-social segments that link it to oppressive organizations, staking out territories by means of codes that impose a way of functioning. A line capable of inventing new possibilities in life, consisting of unique modes of existence that are determined by stylistic movements of creation. So, if the lines of flight, as defined by the authors, are the lines that, once drawn, enable life to reach unique modes of expression where differences impose themselves through style it is certain that, in Adrianna’s work, flight consists of the invention of a unique femininity through the sentimental exploration of houses inhabited by women. A coming into being of the woman, therefore, with her own universe, with her own specific tensions, who gradually emerges through works of art that dignify her.

Meanwhile, the flight that underlies the procedure does not appear in any obvious form. This arises because, at first glance, there is always a sense of strangeness in the presence of the familiar when faced with the poetic land- scapes presented by the artist. Adrianna explores daily life, appears to choose from it the pieces that are most significant to the sentimental domain of women, using this as the base for her movement of deterritorialization. In a certain way, one can affirm that she deconstructs the ongoing day-to-day home of women with the objective of constructing a new home, a unique home, the home for all the homes in which women suffer, love, achieve sexual pleasure and affirm themselves in the desire for flight in order to affirm themselves as they are. Initially, let us say, then, that the work is molded by the tension between an everyday life that fades away in the direction of a house that is yet to exist, where the pathos of deterritorialization shows itself in the work through a process one might call intersectionism. 

This term, taken from the poet Fernando Pessoa, is used by that author to define precisely the poetic proceeding of the works published under his own name that consists in the exploration of the intersection that exists, in each poetic sensation, between mental and physical landscapes, between what is perceived and what is felt, ideas and perceptions, memories of the past and current physical states. For Pessoa, the objective of art is to express the simultaneous intersection between the landscapes of the soul and external landscapes, creating a common landscape consisting of the work of art itself. In the intersectionism of Adrianna Eu, the two landscapes that are linked together belong to the universe of a house inhabited by a woman. On the one hand, there exists a house of intimacy – with the specific feelings of the feminine soul – and, on the other, a domestic environment, a house to be explored in the movement of creation. The underlying intersection consists in a movement of deterritorialization that links objects historically determined as being feminine with the sentiments of the house of in- timacy, producing unprecedented connections, where the sensations created imply the presence of a delicate coming into being. This complex proceeding can be broken down into three movements.

      In the first place, Adrianna uses the red thread the thread that sews the hands to conduct her exploration of the senses. With the thread she manually sews together

a floor composed of old wooden flooring blocks and then suspends it, providing the blocks with a tension and undulation that induces in the spectator the vertigo of a suspension of the senses. In the floor that she makes us see, passion is revealed. A passion inseparable from expectancy. From tense expectation. From the postponement of use. A passion that shows itself in the heart made of red threads displayed on a clothes hanger. Thus, the thread that holds up the floor reappears in the awaiting heart. The red threads also compose another installation: a tent made from a gigantic red sheet, from which hang thousands of lines with golden hooks, creating an atmosphere of aggressiveness and the hunt. However, at the center of the installation one finds an unusual combination of two hooks forming a heart, immediately forcing one to think of love as a hunt, love as capture. In another work, the threads proliferate and form a huge number of suspended hearts, bound to one another by a web, an organic network about to be cut by vast numbers of scissors. Does the cut of the scissors that threatens the unity of the hearts express the end of love or the condition of passion? Does not the threat of separation imply an even stronger desire for union? The threads continue to build unusual

paths of stairs with steps formed by needles, stairs that multiply themselves by bifurcation; they flow through delicate screens, made of silver, subtle screens that remind one of childhood; so as to, finally, pass through the doors open facing each other as a flow of red, perhaps a flow of blood, but certainly a flow of desire. Shortly, the instability of love comes to the fore, a poetics of instability insinuates itself, appealing to a possible universe of a femininity under construction. A universe full of needles, threads, hearts, suspended floors, screens, clothes hang- ers, vertigo, waiting, love, passion and flows of desire. The intersection between what is felt and what is perceived occurs in the sentiment that deterritorializes the object to shape it in the universe of this virtual house, thus characterizing the first step of her procedure.

In the second place – further exploring the house of intimacy in order to increase the intersectionism the artist revisits history, both personal and social, in order to extract from it the material that will embody the sensa-

tions. Everything begins by the choice of the objects: for Adrianna, these objects must already have an esthetic value and present themselves as mementos of the feminine imaginary. So, old powder compacts and mirrors, an umbrella with a decomposing bone handle, a silver mirror that no longer reflects, made transparent by the procedure, sewing needles, an old clothes hanger, must bear a feminine delicacy, bearing also the potential that is absolutely necessary in order to come into being. At first, Adrianna resorts to cliché objects of the feminine universe. She takes these clichés out of their historical context and places them in a zone of indiscernibility, where the object that has been cut off by its isolation from its usual functions is able to enter the possible universe of the house yet to be built. The umbrella, for example, no longer protects but harms, since a shower of pins falls from inside it; the large mirror carries the powder compacts of several gener- ations of women, leading us immediately to reflect on the narcissistic and time-consuming cult of facial beauty under construction; and the silver mirror no longer reflects, but, like a lens, enables one to see a world invaded by the thread that passes through it, the thread that proceeds to involve objects of a world already seen, bringing them into the plane of composition of the sentimental house. Thus, the intersectionism grows in the direction of a zone of time that straddles past and future. When objects are stripped from their history, the entire past is put to flight, while nonetheless conserving dim memories that serve as indications of territories to be constructed.

The procedure is concluded by the creation of a sensation- house, constituted by poetic landscapes that consolidate, in their duration, the emotional world of women. Thus, one must say that the great flight of Adrianna I is the very work under construction. A work that makes the feminine world flee from historical vicissitudes, but which conserves women with their esthetic potential for reinvention – from the starting point of what one is – a liberating movement towards coming into being. Adrianna, in the exploration of her trans-historic house, connecting that which is most intimate with that which is most alien, intersecting the inside and the outside, the past and the present, creates, in a flight that constructs, works that conserve the difference


                                                                                                                                 Auterives Maciel Júnior