Por um fio


"Porque era ele, porque era eu"

Michel de Montaigne



De longe, vemos um plano vermelho que corta o espaço. O tecido muito fino sai do alto de uma das paredes, atravessa toda a sala beirando o teto, e se apóia novamente na parede, mas desta vez com uma das pontas no chão. Conforme nos aproximamos, o leve estranhamento visual que temos revela seu motivo: do teto vermelho pendem finas linhas vermelhas. Inúmeras, lado a lado, que levemente vão interferindo na vista do espaço. Na ponta de cada uma, em diferentes alturas, estão presos pequenos anzois dourados. É inevitável a vontade de se aproximar e percorrer essa massa vermelha com os olhos. Observadores mais atentos conseguem encontrar ali dois anzois presos um ao outro, dando forma a um coração. Não é todo mundo que vê. Quantas não são as pessoas que passam a vida inteira em busca do amor e não o encontram?

Mas talvez aqui o mais importante seja perceber que enquanto observamos a instalação os anzois, inúmeras vezes parecem se juntar e se separar, fazendo e desfazendo encontros, como em um jogo infinito de tentativa e erro. O embaralhamento visual causado pelas linhas nos leva a ver como muito próximos, anzois que na verdade estão muito distantes uns dos outros. Quantas e quantas possibilidades de encontros não estão concentrados ali? Quantos se dão sem sabermos exatamente o que os uniu? Quantos se desfazem sem igualmente entendermos o motivo? Ao mesmo tempo, não se sabe quanto tempo os anzóis que se uniram ficarão unidos e tampouco o que os une.

A instalação foi apresentada por Adrianna Eu no Paço Imperial em 2005. Aquela foi a primeira vez que seu trabalho pode ser visto em um espaço público. E já naquele momento era possível ver as questões que interessam à artista e que sua produção vem desenvolvendo ao longo dos últimos seis anos: as dinâmicas das relações humanas. Perguntado sobre sua amizade por La Boétie, que morreu ainda jovem, o ensaísta e escritor francês Michel de Montaigne (1533-1592) comentou: “Na amizade a que me refiro, as almas entrosam-se e se confundem numa única alma, tão unidas uma à outra que não se distinguem, não se lhes percebendo sequer a linha de demarcação. Se insistirem para que eu diga por que o amava, sinto que não o saberia expressar senão respondendo: porque era ele, porque era eu”.

      Da mesma maneira, a produção de Adrianna Eu não busca explicações para as relações que estabelecemos ao longo da vida, por reconhecer que elas (as explicações) não existem, ou nunca são suficientes. Algo sempre se lhes escapa e é nesse terreno incerto que habitam os trabalhos de Adrianna Eu. Interessa a ela a maneira que nos sentimos em relação ao outro e em relação a nós mesmos. O que tiramos das relações que estabelecemos, sejam elas quais forem, e o que elas nos deixam como herança, como memória.

A linha é peça-chave na construção desse pensamento, mas não é uma linha reta, bem traçada, firme. As linhas de Adrianna Eu não são precisas, nem dessas que fazem ângulo de 90º. São tortuosas, se deixam levar pelo vento, não vão direto ao ponto, dão voltas muito maiores do que precisam para chegar onde querem, e se perdem no meio do caminho, chegando a lugares não imaginados. É no encontro emaranhado das linhas, na costura meio tosca, feita ao acaso que se dão as formas. É nesse momento que o delicado, como uma linha ao sabor do vento, ganha força.

E não é qualquer linha. São linhas vermelhas. Vermelho como o sangue, cor associada às paixões, ao coração que pulsa, à presença da vida. Fios vermelhos que ligavam duas portas que não levavam a lugar nenhum, localizadas no meio do espaço, em uma exposição no Museu Bispo do Rosário (RJ, 2006). Fios vermelhos estendidos da porta de um casarão no Adro de São Francisco até um poste de luz da Rua Sacadura Cabral em um projeto de intervenção pública no Morro da Conceição, no Rio de Janeiro, realizada em 2008 como parte do projeto Morro das Artes IPHAN – Intervenções urbanas.

Os mesmos fios vermelhos embolados ao acaso, quando guardados depois da desmontagem da instalação dos anzóis, que deram origem aos corações com os quais a artista começou a trabalhar em instalações. O coração de fios, que pendia do teto solitário, ganhou o Primeiro Prêmio do Salão Arte Pará em 2006. Em grupo, acompanhados de tesouras que pendiam do teto, todos ligados uns aos outros por grossos emaranhados de fios, integraram a exposição coletiva Abre-Alas na Galeria A Gentil Carioca (RJ, 2007). Já em 2008, eram a peça-chave do projeto desenvolvido especialmente para a residência artística em Amã, na Jordânia. Os 100 corações feitos de fios vermelhos levados pela artista mais os 100 corações feitos por ela de lã da Jordânia resultaram em uma instalação que hoje integra o acervo permanente da Galeria Real de Amã. Há ainda o Coração puro, que não pode ser vendido, só dado, pela artista.

Aos poucos, o as linhas vermelho-sangue, foram abrindo espaço para os rosas da pele, dos seios, e os brancos dos ossos. O corpo ganha mais destaque na produção recente da artista, como o lugar onde moram nossos afetos. Lugar que sente o sofrimento e a alegria desses afetos. Em Aula de Corte e Costura para Moças I e II, um emaranhado de fios rosa está preso a um guardanapo antigo e dão forma a dois seios – parte do corpo intimamente ligada à ideia de troca, de doação ao outro. Um deles traz uma tesoura cravada. O outro, uma agulha. “O corte faz parte da costura”, disse Louise Bourgeois. Cortar é parte fundamental da costura. Cortar não é um fim em si, mas a possibilidade de recomeçar ou continuar. Já em Aula de Corte e Costura para Rapazes um pequeno objeto de vidro em forma de semi-círculo guarda dentro dele um emaranhado de fios rosa. Ele é cercado por isolantes de fios de postes antigos, feitos de louça ou de vidro. A cena que se vê sobre uma mesa traz certa tensão quando percebemos que uma moça está cercada por rapazes. Qual o paralelo para um homem de uma aula de corte e costura para moças?

Chão, ainda inédito, é também um trabalho que lida mais diretamente com o corpo, mas desta vez, com o corpo do espectador. Tacos retirados do quarto da antiga casa da artista foram recosturados, com linhas vermelhas, reconstruindo assim o chão, suspenso a cerca de 40cm do chão. Ao espectador, é permitido entrar nesse espaço, graças a uma fenda aberta entre os tacos. Ali o corpo é colocado em uma situação de desconforto, de alerta, mas não de risco. Aqui, o interesse é pelo o que essa sensação de desconforto gera e não o risco em si. O que acontece quando o chão, uma das metáforas clássicas de segurança, parece tão instável? Essa instalação remete ao chão que se perde e vai sendo refeito, reconstruído. Um chão costurado à mão, instável, inseguro, cheio de erros e falhas. Como os sentimentos, e as pessoas que os carregam. Estamos juntos e separados, Eu e você, por um fio. “Porque era ele. Porque era eu”. Simples assim mesmo. Complicado assim mesmo.



Fernanda Lopes

São Paulo, junho, 2011